domingo, 25 de dezembro de 2011

E se...

'E se...'. As duas palavras que ele sempre dizia toda vez que olhava para o vestido, 
o preferido (já velho, azul de bolinhas brancas), que ela esqueceu no guarda-roupas. 
E nunca mais voltou para buscá-lo.E nem sequer ligou, dizendo que o esqueceu lá.
O silêncio daquele vestido, ausente de quadril, coxas, seios, braços, de se esvoaçar
ao abraço gentil e caloroso do vento, era o próprio silêncio dela, naquela casa.

Esse 'E se...' praticamente gritava ao bairro todo o peso, a dor daquela ausência.
Mas já era madrugada e a cidade inteira dormia, ninguém poderia ouvi-lo,
mas durante o dia, nas raras vezes em que saía de casa, até o  prefeito via
a imensa tristeza naqueles olhos fundos, cansados, sempre rentes ao chão.
Não era só a "habitual" saudade - de enroscar os dedos naqueles imensos cachos
do cabelo dela, da forma suave como ela engatinhava na cama para acordá-lo,
de conversar sobre o Afeganistão e o último CD de uma banda brega.

O que corroía cada mísera centelha de vida que ele ainda possuída era perceber,
exatamente depois de vê-la partindo, que quase tudo ali perderia o sentido.
Que na verdade, o que desaparecia, era um gigantesco pedaço de si mesmo
- aquele que todos diziam ser a pior, mas que ele, sempre viu como a melhor.
E dali em diante, seria tudo singular. Tudo unicamente sozinho, vago, frio.

E mentalmente, foi listando. O cigarro. A liberdade. Sentir a dor de outro.
Antes, alguém compreendia que sempre se fuma depois de um café forte;
e era possível sair e se encantar com outras pessoas sem posse e obsessão;
todos podiam dizer, sentir, falar, falhar, ser o mais humanamente verdadeiro;
e quando algo sufocava, surgia compreensão em olhares compartilhados,
em abraços que já experimentaram o mesmo martírio e sabiam como abrigar.

Agora, qualquer vício era notícia demais, era sentença demais de insanidade,
de qualquer desajuste que o colocava como inferior, deplorável;
e assim passou a usufruir dos seus pecados preso em quatro paredes.
Suas ideias eram vistas como imorais, sujas, como se infidelidade 
fosse algo meramente carnal, um abate no açougue de almas e sentimentos.

Não podia mais ser quem realmente era.
Tudo ali o prendia, o amarrava, o amordaçava para que fosse
total silêncio e satisfação de padrões que antes não importavam.
Pensou então em como são as pessoas, e se entristeceu.
Talvez todas as que o conheciam além de uma capa de livro
estivessem longe, em outras vidas, ausentes ou incapazes 
de fazê-lo ser feliz de alguma forma - ou o errado fosse ele.

Quantas mentiras viveu desde que ela "o abandonou"?
Quantas vezes foi a pessoa que as outras pessoas queriam? 
Não queria contar. A mera ideia de colocar num papel esse tipo de coisa
causava nele uma repugnância de simplesmente existir, de ter existido.






segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Máscara

Deixa                                                      ser.
    de




Anota todos os recados e atende a todas a ligações, 
tanto do telefone fixo quanto dos dois celulares - inclusive de madrugada.
Olha a caixa de e-mails 3x ao dia e responde a todas comunicações e convites imediatamente.




E sempre que convocada, toma um banho e se perfuma.
Na elegância de uma mulher, decidida e centrada, se faz presente, por puro prazer ...
no chá de berço da quinta filha adotiva da antiga vizinha da ex-namorada do pai;
na festa de formatura do pré da entiada da sobrinha dos padrinhos;
no velório do prefeito da cidade, quando ainda era um conjunto de fazendas.
Comparece, indepentende de, conjugando a vida no presente-passado-futuro do sempre.



Senta de pernas cruzadas, com as mãos sobre os joelhos, milimetricamente perfeita.
Conversa baixo, sem alterar o tom e a frequência, como quem canta em cada sílaba dita.
Responde sempre que perguntam e mas sua opinião pessoal não importa.



Assume alguns papéis, mas sempre e da forma mais enquadrada possível:
filha, mãe, melhor amiga, mulher,  profissional.
Acorda cedo de segunda a segunda e chega ao trabalho pontualmente.
O almoço de todos os dias no mesmo horário, assim como o café da manhã e o jantar.




E ouve, é atenta, preocupada, carinhosa, compreensiva e disposta.
Nunca sequer disse Não para alguém, para alguma ocasião.
E nem mesmo contrariou as outras pessoas, por discordar ou por precisar brigar.
Não responde os outros ou fala palavrão, não se irrita, não, nunca na vida.
E não carece que alguém lhe sirva de porto seguro ou que fique sozinha
- é outra coisa que não importa, todos sempre lhe aconselharam.



E faz todas as vontades, todas a que lhe forem alheias, pois isso é ser feliz. 
Os seus próprios desejos? Bobagem, se o que há em torno está bem, ela estará também.
Não se envolve com pessoas de má índole, más companhias ou péssimos exemplos.
Beija, abraça, toca, sorri. Tudo igual até em cada mísero detalhe,
porque assim é preciso ser.Não fuma, nem agora nem antes;
e bebe apenas em ocasiões raras, como as adoráveis festas de
Natal e Ano Novo - que por sinal, tanto a fazem feliz.

E desde então se prepara. No próximo carnaval, é rainha do baile de Máscaras.

domingo, 4 de setembro de 2011

Dia de cama


Não dormia, essa era a realidade daqueles últimos dias
passou tanto tempo deitada, imóvel, que podia imaginar seu corpo suado
colado à roupa de cama que envolvi o colchão velho.
Não tinha sono, fome, vontade de sequer abrir os olhos;
e por tudo isto queria culpar aquele maldito sonho de meses atrás,
traidor de suas tantas mentiras sobre todas as perdas.


Mas que vergonha insípida havia em abrir mão daquilo?
Consciente de que não dependia exclusivamente de sua força
e vontade, trazia cicatrizes cada vez mais profundas e expostas de
todas as tentativas - tanto as grandiosas e bem sucedidas,
quanto as que morreram afogadas ou rastejando na areia da praia.
E dessa vez não era a ausência física: podia tocar, alcançar com os dedos,
o aroma conseguia acessar cada lembrança.
Assim, a falta cabia no sentido, no propósito de se esconder em uma
fotografia que, num dado momento, passou a significar absolutamente nada.


E aí soube, exatamente aí: num lugar incomum de paz interna,
onde se sentia abrigada pela sonhada sabedoria de quem muito viveu
- não necessariamente em tempo, mas em sentimento e recordação.
E aí soube, descobriu, e o encontro imediato com essa verdade
espantou sua letargia como um espanador tira a poeira dos móveis, da casa.
Abriu os olhos calmamente, e sorriu para o teto:
Perder, nessa vida, não tinha carência de ser sempre uma tortura.
Perder também podia ser bonito (talvez bastasse um dia de cama).





quarta-feira, 24 de agosto de 2011

"The Scientist"


Angústia. Chego em casa e aparentemente, tudo continua calmo como quando eu saí.
Aliás, "calmo". Aquele estado letárgico de movimentos e situações que não exibem glamour nem
decadência suficientes para um despertar interno, o qual se deu agora, minutos atrás.
Nada em especial? Não sei dizer, conscientemente, o motivo exato para essa inquietação que parece
mar bravo se jogando sobre as pedras. É a sensação que vem do paradoxo de se perder e se encontrar;
de pensar em ser curandeira da dor de outra alma enquanto finco estancas na minha; de ver o mundo
num espelho grande, claro e bonito, e segundos depois, no reflexo das águas de um rio imundo.

E venho em próprio desconforto declarar meu  turbilhão, desse processo de me tornar Ser Psicológico.
Nesses momentos, lembro de uma outra Juliana, que pensava em História, Direito, Aeronáutica.
Parece piada, mas todas as risadas cessam no exato momento em que tomo partido do atual lugar
a que pertenço. Como definir esse lugar? Sinceramente, quase 2 anos colorem essa dúvida, e tantas
outras que me roubam o sono, o apetite e ás vezes a esperança. Assustador - que assusta, amedronta, intimida. Do solidus de encarar uma realidade que brinca escondida nas cortinas, debaixo da cama,
do nariz, atrás da porta, dos olhos, do sorriso. É como passar anos trancada numa masmorra,
conhecendo cada palmo daquela prisão e fingindo olhar para além das grades .. apenas fingindo,
procurando o cenário já imaginado. E de repente, sou absolvida para na verdade ser entregue à tortura de
conquistar essa liberdade, que voa de pensamento à sentimento sem qualquer obrigação de ter sentido.

Contudo, ninguém esquece o preço desse vôo no escuro.
Seria muito fácil e banal dizer que o mundo é injusto; a constatação em questão advém de todos as lacunas
e precipícios que encontrei a cada segundo, do quanto (sempre) percebo que os desajustes compõem o
ajuste maior que é estar vivo. E todas as bobagens e receitas prontas que criam moldes perfeitos ...
de nada adiantam, quando cada um é tão um que ao se multiplicar também se divide e de forma bastante
diferente de qualquer outro.

O segundo nó desse chicote invisível: impotência.
Parece ressaca, enxaqueca, mas é "só" o momento em que me dou conta de que meus braços não são tão
grandes para abrigar todo ser humano que se sente só; nem tão fortes para protegê-lo dos medos e fantasmas - reais ou não. Ecoa na consciência a condição de poder ter ação sob algo, que
contraditoriamente, não depende só da minha vontade e boa intenção, de uma maneira indescritível.
E assim a lista se estende sendo impossível citar todos os nós de uma corda que eu e várias outras pessoas
arrastam e se prendem, no intuito de trazer a outra ponta para o mais perto de uma qualquer felicidade.

E posta em frente ao espelho, contemplo em admiração e horror o que tenho por objeto de estudo: eu
mesma, desenhada por histórias que vivo em tempos diversos e outras tantas que apenas me contaram.
Sou o ser ímpar, com todas as particularidades que me diferem do outro; e o par, que não é apenas de dois
mas sim de uma multidão oculta em ideias, sonhos, desejos. Ao me encarar assim, o que eu vejo é um bloco
de cores: preciso acreditar que a fusão de todas ou algumas delas, mesmo que tardiamente, é capaz de montar um grande filete de luz .. intenso, verdadeiro e delicadamente belo.


quarta-feira, 29 de junho de 2011

Ímpar

Sabe aquela mulher que acabou de entrar?
Ela vem em minha direção parecendo adivinhar os pensamentos tantos
que tento inultimente calar para mascarar minha curiosidade.
Um corpo esguio dançando suave - quase hipnotizando - chega à mesa e se senta.
Olhos brandos que nada perguntam mas devassam interiormente a qualquer um
que os fite por meros segundos, nessa distração banal do meio-dia.

E o mar de sensações indescritíveis que o magnetismo que essa criatura causa
em qualquer inocente, abre-se e assim abre também as cortinas.

'Sempre achei um pouco cômica a forma de me olharem dos pés a cabeça,
como se eu fosse dessas estátuas brancas de enfeitar jardim ou sala de estar.
Antes era justamente essa maquiagem que me aterrorizava ... hoje não.
Aprendi a fazer o que eu quero, para ser quem eu quero e no instante necessário.
Igual ele me disse dias atrás, acabei aprendendo a rebolar na cara do pecado.
Não posso negar que já quebrei os saltos e alguns desses tombos ainda
doem, devia ter me precavido em vez de optar sempre pelo perigo.
Porém, é exatamente jogando assim que durmo em lençois que não me
pertencem sem dividir o cobertor - distância como medida de segurança.
Posso acordar e decidir ser branda, calma. Chamo ele pra um café e entre uns
afagos e sorrisos, a gente conversa sobre política, religião e prazer.
Noutras vezes, sumo propositalmente e acho outros becos que me prendem
e só retomo o caminho de casa quando o sol da sanidade nasce ao leste.
Ou então me dou por perdida em outros ceus quando o tempo precisa parar.
E no meio dos pólos, trabalho árduo: cuido dos meus filhos que não nasceram.
De uma coisa você pode ter certeza ... ninguém sai ilesa da falta que faz um outro
que consuma o seu silêncio e seus gemidos, ao mesmo tempo, num mesmo abraço.
Não acho que solidão mate, mas a espera sim.'


Fitou o copo por alguns segundos e depois arrastou os sapatos até o outro
lado da sala. Não tive coragem de vigiar seus atos e esperei alguns minutos.
Disfarçadamente, vi .. caminhava lentamente na calçada, lá de fora,
abraçada com a sinceridade - de quem viveu todos os altos e baixos.



sexta-feira, 10 de junho de 2011

Alma

No meio de um deserto de destroços,
fora descoberta uma vila de pouca gente,
onde tudo se pinta com um sorriso insípido e insano em preto e branco,
para assim mascarar a carne crua.

Emaranhado de caminhos de terra, e a rua principal.
Ao fim dela, descendo o morro da verdade, dá pra ver um casebre
em meio à circunferência de flores murchas, pétalas quase pó.
Do lado de fora quase nenhuma cor, todo pudor - monótono.
A porta de madeira velha, rangindo, cantando baixo
latejando a discrepância entre os passos.

'- Pode entrar ... Melhor tirar o casaco, abrir os braços e fechar os olhos.
- Mas por quê?'

Temperatura - como óleo e rastro de pneu, queima.
Sussuros condenam um prazer incomun,
o hedonismo de unhas e dentes afiados que marcam
- mordem e arranham - desde o primeiro contato.
Os vidros embaçados - pequenas gotas deslizam correndo,
qual chega mais rápido ao vão da janela?
Confuso .. ás vezes parece pimenta, noutras canela.
Um enorme feixe de luz, dança entre todas as tonalidades
e pinta os cabelos feito aro-íris. Claro, estonteante.
Não há vergonha ou roupa que esconda tamanho gozo
inocente e crente num sentimento incabível em palavras.

Ainda mãos apertando, uma boca intrusa,
uma língua doce que nada diz, mas faz sentir.

O instante seguinte é sempre a maior surpresa do suspiro anterior.
Um dia fora corpo. Agora, a carne viva vive de outra forma,
presa à surpresa de ser tão e completamente sua,
a ponto de se multiplicar e dividir.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Insolúvel

A menina dos olhos profundos feito Turmalina,
encontra abrigo exato em braços -
tão cansados, pendendo no corpo da resignação -
e criança que é, mergulha na ilusão de cada conto.
Crê em cada palavra. É então a verdade indubitável,
que faz mergulhar numa tela pintada a ilusões.


Adormece no instante em que o corpo corre
no sentido contrário da voracidade do mundo.
E naquele sonho, olha para a palma das mãos da mulher
e compreende quase que instantaneamente que força
é remar contra a corrente sem ao menos um barco.
Pupilas cor de camarelo ... doce, suave, ingênua.
Pensa .. 'Quero ser assim: poder me olhar no
espelho e ter certeza que lutei como ela.'


Ironia: a luz se apaga e assim, desperta.
Atordoada com o espaço que não devia existir,
uma mão fechada à garganta, a outra agarrando o lençol.
Onde ela está? Onde é que foi assim tão cedo?
Será que desceu as escadas pra fazer
o jardim florescer como nas outras manhãs?



Olhos verdes, do mais claro tom.



segunda-feira, 16 de maio de 2011

De dentro

Eis um corpo que clama, em cada pulsar, a possibilidade
de atravessar ileso o imprevisto dessa tempestade.
As tantas marcas se cruzam e prefiro me ausentar de mim.
Não era pra ser assim, fugiu dos planos - A, B ... Z.
Uma linha torta muda o traço de uma vida toda.

A dor - um laço grande e belo que enfeita essa caixa,
preenche o vazio de dentro com cores de sonhos.
Mesmo olhando de cima ou contornando-a por fora,
a verdade que ela esconde foge aos mais atentos olhos.

O gosto amargo não é por causa vinho de ontem,
o que me deram no balcão foi um tonel de boas farsas.
E todas as mentiras foram o preço certo do silêncio,
sem garantia, devolução ou manutenção em caso de perdas.

Sei de todos os desvios dessa estrada e não há qualquer
forma de transformá-los em meros contornos ou pontes.
Enquanto chove, rejeito até as breves expedições pela varanda,
que é pra evitar acidentes com os poucos ossos
que até agora permanecem apenas trincados.

Falar de verão não faz o gelo daqui derreter
não traz nenhum raio de luz pela porta ou janela
não aquece o velho cobertor estirado sob a cama.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Dama de Espadas - Consciência

E assim que os ponteiros se encontram, torna-se inadiável.

- Como você me imaginava? - a Dama pergunta, um tanto quanto curiosa.
- Provavelmente como todos eles imaginam. Velha, cruel, horripilante. Confesso que me surpreendi com olhos tão claros e toda essa tranquilidade que existe em você. Inesperado, suficientemente conflitante para me pegar na boca do estômago.
- É realmente a impressão comum. E vocês ainda conversam sobre não julgar pela aparência, quanta hipocrisia! Aliás, são todos assim. Quando se perdem por algum caminho, me chamam aos berros, esquecendo por alguns minutos qualquer temor.
- Você diz sobre mim?
- Não só. Mas você tem sido uma incógnita para mim.
- Como assim?
- No fundo, você sabe e compreende. No entanto, não é por isso que eu estou aqui hoje, e disso você também está ciente. Não é preciso fingir que somos realmente desconhecidas uma para a outra.
- Quer discutir a relação?
- E há como discutir? Não é por escolha, não adianta você ou qualquer outra me culpar. É como um serviço de entrega: sei de onde vem e para onde vai, mas desconheço o motivo e o objeto. Nunca foi uma relação de presença ou não de simpatia. Não vou colecionar almas, tanto porque eu não teria forma alguma de aproveitá-las. E não é da minha competência tomar as rédeas do consolo ... plenamente irracional eu te dar colo numa hora dessas, para depois me incubir da minha tarefa.
- Então é simplesmente vazio, como tudo branco?
- Enlouqueceu? É tanta cor que por vezes eu me sinto atordoada. Parece um eterno carnaval e é uma condição terrível. Quem dera eu tivesse a brevidade que tanto os incomoda.


E o que resta entre a Dama de Copas e a menina é só o mundo,
esfera minúscula diante da grandeza desconcertante da ocasião.
Uma vida de silêncio.


- Não existe a possibilidade de fazer uma troca? - pergunta a menina,
com o verde dessa bola de gude que é a Terra, brilhando nos olhos.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

In-dignação

Me disseram que era errado, insensato e irracional.

Não posso mais respirar o ar dos poetas,
é incontestavelmente proibido viver do fervor dos boêmios,
a lei diz que tenho que voltar pra casa antes das 10.
- Nada de sentir, viver e amar.


Me falaram sobre humanidade e respeito,
e vi que eles carregavam a bíblia do julgamento numa mão
e na outra, a força contra a contradição.
- Nada de compreensão, compaixão e vontade.


Ao fim de cada noite, fui me deitar e me seguiram até o quarto.
Me cobriram de tolas mentiras e cochicharam,
'que tenha o sono dos justos'.
Depois só ouvi o barulho dos vidros quebrados e um grito sufocado.
Deixaram-na ferida na sala de estar, mais um corpo estendido no tapete vermelho.
E todos os dias são exatamente iguais ... sobrevive graças as minhas preces,
e daqueles outros que podem ouví-la chorar.

Sangra pelas escadas, ruas e faróis ...
Liberdade ferida, escondendo qualquer dor.



/ Por Ric e Ju F.

terça-feira, 19 de abril de 2011

Καρδιά

Desde domingo, ninguém por aqui tomou meu café.
Sei que não é obra sua, mas de todas as alheias lamúrias,
essa é exatamente a que eu não quero.
Não vou me sujar com o que te dizem pelos cantos
e a verdade é que não há como nos separar.

A mera aparência sustenta cada parte sua,
- independentemente de inverno ou verão -
e por vezes se perde no hedonismo de qualquer vagabundo.
Mergulha fundo e prende o ar,
te atormenta quase instantaneamente
até ecoarem seus gritos desesperados dentro de mim.
E você me trai, me condena em cima do palco,
e arranca a máscara que me protege.
Até o instante em que eu fico vermelha
e você promete parar de rir de mim.

Diante desses tormentos, sempre faço tempestade
para repetir as desculpas que ensaiei em cada suspiro.
Não é como culpa, talvez eu não saiba
qual a melhor maneira de cuidar de nós.
Escuto cada conselho e sei que muito me atrevo
deixando de medir o tamanho e impacto
toda vez que me atiro nos incontáveis abismos.

Te encontro no fim da tarde
e prometo não esquecer das 3 colheres de açúcar.
Aquele vestido que você tanto gosta
o anacronismo desenhado no mundo além
dessa janela e a certeza de eterno abrigo em você.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Gata sem dono

Enquanto a cidade dorme por trás das portas,
lá vai ela, caminhando lerda e mansa
pelos escombros das construções.
O nariz gelado, os olhos semicerrados,
perigos demais pra quase nada de sensatez.


Sem aquela pressa das 7 vidas,
atenta as orelhas pra qualquer ruído (des)conhecido.
Encosta no vão da janela e se deita.
Olha para o reflexo, repara nos dentes e garras,
se perguntando quando realmente precisou usá-los.
E antes que venha a resposta, se arrepia ..
bigodes pra cima, é melhor não pensar.


Segue olhando a lua, contando os muros e telhados,
e ri sozinha quando é sobre becos.
Talvez seja um pouco de solidão,
mas num banco qualquer tem sempre uma súplica
de um pobre coitado, um pouco injuriado.
Um perfeito par no sentido mais singular,
que perdeu sua história ou sua razão num copo
ou nos lábios de qualquer outra que o abandonou.
Não se importa, todo mundo é assim ...


 E lasciva, querendo mais mimo que novelo
pra se enroscar, sabe que convém miar baixinho.
Braços e pernas para chegar, o corpo todo
pra esbarrar num bom estranho.
E até o silêncio vê surgir um sorriso indecente,
já sabe bem o que acontece depois.
São duas mãos e um pouco de calor,
o melhor tipo de afago, sem necessidade de se pedir.
Estica o corpo, se contorce e na próxima vez
que abrir os olhos, ja vai ser outro dia, cheio ...


Cheio de alívios e vontades, afinal,
todo dia é sexta-feira treze.

quinta-feira, 31 de março de 2011

Diz ajuste.

- 'Você consegue me ver?' Nem amanheceu e
eis a pergunta sussurada, muito além de palavras e lábios.


Bebe o café com calma, como se fosse
a própria vida a cada gole .. de certa forma, o mesmo sabor.
Queria ser minúscula, detalhadamente feita para caber
entre as mãos e ser tomada, por inteira.
Ser vista de cima, para dentro, fazendo-se parte.
Podia ser pétala de flor ou canto de bem-te-vi ...
a foto que nunca desbota ou uma melodia peculiar.


Não ... foi ser o desajuste, o chão tremendo sob os pés,
o coração na mão de qualquer estranho.
A necessidade incomum de ser gasta,
de ter as energias completamente roubadas e adormecer ...
terna e profundamente ao fim de todos os dias.

segunda-feira, 21 de março de 2011

'Calma, finge que voa.'


É certo que fica a falta de motivo ou só um
pra dançar sozinha em cima da lua
lembrando como é ser criança depois de séculos.
Andei por mil anos e fui uma,
a cada lugar e sorriso que me prendeu.
Fiquei, permaneci imóvel a cada estação,
irracional e simplesmente uma parte de tudo.


E olho assim .. para os mesmos braços,
o mesmo corpo, a mesma inconstância.
O que muda é quem e o que fica entre os abraços,
o que pega no corpo, em cada parte.
Raro. Tocar e ser tão raros ... mas ainda me lembro.
E fica o espaço, a vontade, o capricho.

quarta-feira, 16 de março de 2011

{ }

E o silêncio do mundo.
A sobra de espaço entre os braços.
A falta do que não tem num café.






Agora eu te pergunto, Espelho,
o que é que você vê?

sábado, 12 de março de 2011

Conversa com Tempo



Mas vê só, Tempo, é exatamente isso que
eu falei ontem a noite.
É essa ausência de pressa que me deixa aqui,
sentada por horas na varanda,
olhando as crianças brincando
com seus sonhos lá fora.

Parece uma sabedoria de milênios,
mas na verdade é um pouco de cansaço de
algumas décadas pesadas.
É quase a falta de direção acompanhada
pela vontade de chegar em algum lugar.
Muito longe de desistência ou acomodar-me,
é como a pausa necessária para aceitar
um fim de guerra, um começo de era.

E aí vou eu, desfilando sem passar,
ora com cores e ora sem amores,
fazendo festa pra cada sorriso e ás vezes,
sem querer, velório pra algumas decepções.
Cansada mas ainda crente em cantar e viver,
pequena, mas querendo ser enorme dentro dos outros.
Tão eu mesma _ profunda, clara e estampada_
que fica difícil explicar o que é.

sábado, 5 de março de 2011

Lá do A lá do B

Lembrar.



Do sorriso sem motivo, brando e escancarado.
Da calma andando de mãos dadas com a espera, mesmo quando já não havia mais tempo.
De um perfume inexplicável, que nunca existiu.
Do olhar sincero, até na incerteza, colorindo a dúvida cruel.
Dos braços, ao redor, que não era proteção e nem possessão.
Das mãos passando entre os fios de cabelo, aquela coisa bem afago de gato.
Dos dedos se entrelaçando, denunciando cumplicidade.

A menina do vestido cor de algodão doce,
e a vida se fazendo em cada respiração.
O lado A daquele disco.

Da tentativa de aprisionar e sufocar, tantas amarras sem saber porquê.
Do que tentava causar a desistência, como algo puxando pra baixo.
De algumas marcas, que de certa forma nunca somem.
De algumas expectativas, carregadas de ilusões.
De esperar verdade, a maior das formas de mentir pra si mesmo.
Da injustiça, vulgar, pintada, toda disfarçada, andando pelas ruas da cidade.
Do falso humano, vivendo de aparências e opiniões.

A senhora do chapeu de cor de tempestade,
e a vida se desfazendo, virando pó, areia.
O lado B daquele disco.

Então, o que você quer ouvir?



domingo, 27 de fevereiro de 2011

Pra dentro de mim


Como fotografia, meus olhos
- agora tão claros e esverdeados, além de cansados -
puderam capturar aquele lugar.


O calor, as cores, a respiração.


 Feito criança vislumbrada com mágica barata,
mergulhei na ilusão e me neguei a ser vítima do kronos
bem amparado no vasinho de flor do vizinho.
Não queria, não poderia crer que tal verdade
se sobressaía a tudo, ao mundo.


Estática, só eu, olhando pra dentro de mim.
E o resto todo, mudança, vir a ser.


Mesmo se fosse uma devastadora tempestade
anunciando sua chegada, causando qualquer temor,
eu não pude me fechar para o inusitado
para o temor diante da beleza e do não dito.
É que fico, permaneço, fortaleço algumas raízes
e me recuso a tentar não pertencer
a todo esse encanto diante de algo bem maior.


E bem baixinho suplico, olhando para minh'alma
tão frágil na palma das mãos ... 'vai ficar tudo bem.'