quarta-feira, 29 de junho de 2011

Ímpar

Sabe aquela mulher que acabou de entrar?
Ela vem em minha direção parecendo adivinhar os pensamentos tantos
que tento inultimente calar para mascarar minha curiosidade.
Um corpo esguio dançando suave - quase hipnotizando - chega à mesa e se senta.
Olhos brandos que nada perguntam mas devassam interiormente a qualquer um
que os fite por meros segundos, nessa distração banal do meio-dia.

E o mar de sensações indescritíveis que o magnetismo que essa criatura causa
em qualquer inocente, abre-se e assim abre também as cortinas.

'Sempre achei um pouco cômica a forma de me olharem dos pés a cabeça,
como se eu fosse dessas estátuas brancas de enfeitar jardim ou sala de estar.
Antes era justamente essa maquiagem que me aterrorizava ... hoje não.
Aprendi a fazer o que eu quero, para ser quem eu quero e no instante necessário.
Igual ele me disse dias atrás, acabei aprendendo a rebolar na cara do pecado.
Não posso negar que já quebrei os saltos e alguns desses tombos ainda
doem, devia ter me precavido em vez de optar sempre pelo perigo.
Porém, é exatamente jogando assim que durmo em lençois que não me
pertencem sem dividir o cobertor - distância como medida de segurança.
Posso acordar e decidir ser branda, calma. Chamo ele pra um café e entre uns
afagos e sorrisos, a gente conversa sobre política, religião e prazer.
Noutras vezes, sumo propositalmente e acho outros becos que me prendem
e só retomo o caminho de casa quando o sol da sanidade nasce ao leste.
Ou então me dou por perdida em outros ceus quando o tempo precisa parar.
E no meio dos pólos, trabalho árduo: cuido dos meus filhos que não nasceram.
De uma coisa você pode ter certeza ... ninguém sai ilesa da falta que faz um outro
que consuma o seu silêncio e seus gemidos, ao mesmo tempo, num mesmo abraço.
Não acho que solidão mate, mas a espera sim.'


Fitou o copo por alguns segundos e depois arrastou os sapatos até o outro
lado da sala. Não tive coragem de vigiar seus atos e esperei alguns minutos.
Disfarçadamente, vi .. caminhava lentamente na calçada, lá de fora,
abraçada com a sinceridade - de quem viveu todos os altos e baixos.



sexta-feira, 10 de junho de 2011

Alma

No meio de um deserto de destroços,
fora descoberta uma vila de pouca gente,
onde tudo se pinta com um sorriso insípido e insano em preto e branco,
para assim mascarar a carne crua.

Emaranhado de caminhos de terra, e a rua principal.
Ao fim dela, descendo o morro da verdade, dá pra ver um casebre
em meio à circunferência de flores murchas, pétalas quase pó.
Do lado de fora quase nenhuma cor, todo pudor - monótono.
A porta de madeira velha, rangindo, cantando baixo
latejando a discrepância entre os passos.

'- Pode entrar ... Melhor tirar o casaco, abrir os braços e fechar os olhos.
- Mas por quê?'

Temperatura - como óleo e rastro de pneu, queima.
Sussuros condenam um prazer incomun,
o hedonismo de unhas e dentes afiados que marcam
- mordem e arranham - desde o primeiro contato.
Os vidros embaçados - pequenas gotas deslizam correndo,
qual chega mais rápido ao vão da janela?
Confuso .. ás vezes parece pimenta, noutras canela.
Um enorme feixe de luz, dança entre todas as tonalidades
e pinta os cabelos feito aro-íris. Claro, estonteante.
Não há vergonha ou roupa que esconda tamanho gozo
inocente e crente num sentimento incabível em palavras.

Ainda mãos apertando, uma boca intrusa,
uma língua doce que nada diz, mas faz sentir.

O instante seguinte é sempre a maior surpresa do suspiro anterior.
Um dia fora corpo. Agora, a carne viva vive de outra forma,
presa à surpresa de ser tão e completamente sua,
a ponto de se multiplicar e dividir.