sábado, 10 de março de 2012

Mão


Pode ser pequena, de dedos finos e unhas quadradas,
com furinhos na parte de cima igual na de qualquer bebê.
Ou de os traços bem marcados, dedos grossos e fortes
e várias cicatrizes de quem precisa disso para viver.


Esconde.

Olhos cansados e as pálpebras caídas de quem perdeu 
a sua fé, o seu emprego, o seu amor, ou a si mesmo.
De algum machucado que não se quer mostrar,
nos braços, no rosto, no pescoço, no peito, na alma.
Ou um presente que não se dá simples e diretamente,
uma rosa escondida às costas, uma carta de despedida,
um pedido de perdão pelo que nem sequer foi um erro.
Protegem um corpo que se despe para precisar se cobrir,
morador de uma saia curta, um decote grande.


Mostra.

A delicadeza de qualquer toque dotado de perfume
- encostar na perna, se emaranhar nos cabelos, passar os 
dedos pela nuca, bochecha e descer por toda as costas.
Repousar em outra, de um outro ou outra.
Sustentar em si um sentimento inexplicavelmente terno.



Pode ser destra ou canhota.

Mas a mão que já acaricou, hoje é palmatória, par de algemas, 
corta assim como corta chicote, é corda que aprisiona e fere.
Já aquela quase invisível, perdida entre bolsos ou pendurada 
pelos braços como um gancho, faz acordar e adormecer puxando 
o rosto para perto e 'apesar de tudo, eu estou aqui.'