Não dormia, essa era a realidade daqueles últimos dias
passou tanto tempo deitada, imóvel, que podia imaginar seu corpo suado
colado à roupa de cama que envolvi o colchão velho.
Não tinha sono, fome, vontade de sequer abrir os olhos;
e por tudo isto queria culpar aquele maldito sonho de meses atrás,
traidor de suas tantas mentiras sobre todas as perdas.
Mas que vergonha insípida havia em abrir mão daquilo?
Consciente de que não dependia exclusivamente de sua força
e vontade, trazia cicatrizes cada vez mais profundas e expostas de
todas as tentativas - tanto as grandiosas e bem sucedidas,
quanto as que morreram afogadas ou rastejando na areia da praia.
E dessa vez não era a ausência física: podia tocar, alcançar com os dedos,
o aroma conseguia acessar cada lembrança.
Assim, a falta cabia no sentido, no propósito de se esconder em uma
fotografia que, num dado momento, passou a significar absolutamente nada.
E aí soube, exatamente aí: num lugar incomum de paz interna,
onde se sentia abrigada pela sonhada sabedoria de quem muito viveu
- não necessariamente em tempo, mas em sentimento e recordação.
E aí soube, descobriu, e o encontro imediato com essa verdade
espantou sua letargia como um espanador tira a poeira dos móveis, da casa.
Abriu os olhos calmamente, e sorriu para o teto:
Perder, nessa vida, não tinha carência de ser sempre uma tortura.
Perder também podia ser bonito (talvez bastasse um dia de cama).
