... Muito engraçada, tinha teto, tinha Domingo, tinha escada.
Tinha velho, adulto e criança, e fotos de todos eles espalhadas pelos aparadores da sala.
Tinha três quartos: um com o guarda-roupas de portas caindo e pregos sorrindo ferrugem;
outro com a janela para o telhado, quase nunca ocupado;
e aquele pequenininho - cama, cômoda e livros.
Tinha um jardinzinho de grama bem em frente a porta azul da sala. Nas janelas, aqueles moldes de havaianas para segurar a trava, e já dentro, tapete, taco encerado; e bonecas, jogos, baralhos, pelo chão, pelos sofás. O menino jornaleiro e flores pela estante, e a tevê (A copa do mundo é nossa, o especial do Roberto Carlos, o plantão da Globo ...)
E na cozinha, a mesa grande que comemorou aniversários, Natais, novos anos, almoços, pasteis e pães de queijo, e tortas e chocolates. A antiga vitrola num armário bege, e panelas que cantavam desde as 5 da manhã. Uma segunda cozinha. Daquelas que todo mundo passa e bilisca a quitanda da tarde antes dela ficar pronta, e pergunta se deixou o gás aberto e quando é que o feijão fica pronto.
Atravessando o portãozinho de grade, a parte dos fundos. O tanquinho de sempre, redes, bancos, cadeiras, outra mesa. E a horta: 'joga água nas plantas pra mim?', 'pega couve, cebolinha, e leva lá', ou 'leva para você'.
Berros. Daquela felicidade nada contida de se rir alto, de lembrar da juventude dos mais velhos e perceber que eles também fizeram muitas coisas escondidos, namoraram, se decepcionaram, realizaram alguns sonhos e abandonaram outros. E de uma fúria que ás vezes assustava, de presenciar discussões, choros, acusações, que por vezes surgiam simplesmente de lugar algum.
Abraços. De quando alguém chorava por algum problema ou caía feito jaca madura perto da geladeira, quando as crianças queriam dar birra. Dos amigos ocultos na hora de entregar os presentes, de parabéns por todos os anos de vida, de comemoração por uma mísera conquista de qualquer que fosse. Nas visitas, no amigo de alguém que estava ali pela primeira, mas recebido com tanto sorriso e cafezinho passado na hora; ou de aconchego quando já era de casa.
Seria apenas uma tela pintada, se não fosse a história de quase toda a minha vida, com todas as transformações ao longo dos anos: cômodos a mais, móveis novos, outros quadros na parede, pessoas que não mais pertenciam àquele lugar - por n motivos. É onde os pés se firmam, os pulmões inflam, e o suspiro do ar expirado diz "É o meu lugar", apesar de tanta coisa já deixada para trás, de tantas perdas, de inúmeras saudades. É onde residiu um sonho de criança, que desapareceu por um tempo como se fosse um segredo, para reviver a pouco tempo - e seu eu não conseguir fazer dele realidade, que me perdoem, que me entendam.
Aos olhos alheios, não é mias a residência de nenhum F. Vai ganhar outro dono, outros móveis, a fachada pode ser pintada de verde escuro, e as pessoas dali serem completamente diferentes das anteriores. Serão outras histórias e sentimentos, queridos desconhecidos que talvez não compreendam a importância daquele sobrado para mim, que nem sequer imaginam que eu e esse lugar existíamos juntos. Alguéns que nunca saberão o quanto aquelas paredes fez de mim e outros, fortes, unidos, mesmo com qualquer laço quebrado.
'Mas era feita com muito esmero,
na rua dos bobos, número oitenta e um.'
