quarta-feira, 27 de abril de 2011

In-dignação

Me disseram que era errado, insensato e irracional.

Não posso mais respirar o ar dos poetas,
é incontestavelmente proibido viver do fervor dos boêmios,
a lei diz que tenho que voltar pra casa antes das 10.
- Nada de sentir, viver e amar.


Me falaram sobre humanidade e respeito,
e vi que eles carregavam a bíblia do julgamento numa mão
e na outra, a força contra a contradição.
- Nada de compreensão, compaixão e vontade.


Ao fim de cada noite, fui me deitar e me seguiram até o quarto.
Me cobriram de tolas mentiras e cochicharam,
'que tenha o sono dos justos'.
Depois só ouvi o barulho dos vidros quebrados e um grito sufocado.
Deixaram-na ferida na sala de estar, mais um corpo estendido no tapete vermelho.
E todos os dias são exatamente iguais ... sobrevive graças as minhas preces,
e daqueles outros que podem ouví-la chorar.

Sangra pelas escadas, ruas e faróis ...
Liberdade ferida, escondendo qualquer dor.



/ Por Ric e Ju F.

terça-feira, 19 de abril de 2011

Καρδιά

Desde domingo, ninguém por aqui tomou meu café.
Sei que não é obra sua, mas de todas as alheias lamúrias,
essa é exatamente a que eu não quero.
Não vou me sujar com o que te dizem pelos cantos
e a verdade é que não há como nos separar.

A mera aparência sustenta cada parte sua,
- independentemente de inverno ou verão -
e por vezes se perde no hedonismo de qualquer vagabundo.
Mergulha fundo e prende o ar,
te atormenta quase instantaneamente
até ecoarem seus gritos desesperados dentro de mim.
E você me trai, me condena em cima do palco,
e arranca a máscara que me protege.
Até o instante em que eu fico vermelha
e você promete parar de rir de mim.

Diante desses tormentos, sempre faço tempestade
para repetir as desculpas que ensaiei em cada suspiro.
Não é como culpa, talvez eu não saiba
qual a melhor maneira de cuidar de nós.
Escuto cada conselho e sei que muito me atrevo
deixando de medir o tamanho e impacto
toda vez que me atiro nos incontáveis abismos.

Te encontro no fim da tarde
e prometo não esquecer das 3 colheres de açúcar.
Aquele vestido que você tanto gosta
o anacronismo desenhado no mundo além
dessa janela e a certeza de eterno abrigo em você.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Gata sem dono

Enquanto a cidade dorme por trás das portas,
lá vai ela, caminhando lerda e mansa
pelos escombros das construções.
O nariz gelado, os olhos semicerrados,
perigos demais pra quase nada de sensatez.


Sem aquela pressa das 7 vidas,
atenta as orelhas pra qualquer ruído (des)conhecido.
Encosta no vão da janela e se deita.
Olha para o reflexo, repara nos dentes e garras,
se perguntando quando realmente precisou usá-los.
E antes que venha a resposta, se arrepia ..
bigodes pra cima, é melhor não pensar.


Segue olhando a lua, contando os muros e telhados,
e ri sozinha quando é sobre becos.
Talvez seja um pouco de solidão,
mas num banco qualquer tem sempre uma súplica
de um pobre coitado, um pouco injuriado.
Um perfeito par no sentido mais singular,
que perdeu sua história ou sua razão num copo
ou nos lábios de qualquer outra que o abandonou.
Não se importa, todo mundo é assim ...


 E lasciva, querendo mais mimo que novelo
pra se enroscar, sabe que convém miar baixinho.
Braços e pernas para chegar, o corpo todo
pra esbarrar num bom estranho.
E até o silêncio vê surgir um sorriso indecente,
já sabe bem o que acontece depois.
São duas mãos e um pouco de calor,
o melhor tipo de afago, sem necessidade de se pedir.
Estica o corpo, se contorce e na próxima vez
que abrir os olhos, ja vai ser outro dia, cheio ...


Cheio de alívios e vontades, afinal,
todo dia é sexta-feira treze.