quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Cansaço


Não é de carregar peso subindo escadas
ou do treino da academia.
Nem de passar infinitas madrugadas acordada
e sofrer as consequências à luz do dia.

É de gente.

De gente que força sentimento sem sentir,
que força vida sem viver,
que força ser sem nunca ter sido
- sabendo também que nunca será.

De gente que fala sem parar e não diz nada,
que não suporta o silêncio por meros segundos,
que mantém amizades e relacionamentos por carência
- não porque realmente se preocupa e afeiçoa a certas pessoas.

De gente que mente para parecer interessante,
interessado, simpático, rico, bonito
e não passa de uma capa que todo mundo sabe
que é apenas uma capa, nada mais que isso.

De gente que gosta de se enganar e aos outros
para evitar o desconhecido ou qualquer conflito.
Que diz priorizar a sinceridade mas se ofende
com as respostas mais francas
e acha tudo grosseria e falta de respeito.

De gente que acha que tudo é eterno.
Que só sabe dar valor depois que perdeu.
Que não tem maturidade para ouvir aquilo que não quer.

De gente que chama as pessoas pelo apelido e sobrenome.
Que diz que vai mudar de comportamento
e na primeira oportunidade, faz tudo exatamente igual.
De gente que faz drama para chamar a atenção
- melancia funciona de uma forma mais eficaz!

De gente que não tem sido gente desde sempre.

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Ensaio sobre ele


'Eu nem vi quando você espetou sua casa aqui.'

Espetou a casa e trouxe aquele ar frio
que vem do jardim dos fundos e chega até a cozinha,
me sobressalta a espinha e me faz curvar em calafrio.

Espetou os dedos, como se fossem agulhas
diretamente no meu peito arfante e descompassado,
pedindo só o socorro que não sei dar.

Aqui.

Dentro.

Distante.

Escuro.

Estranho.

Aqui. Você se transforma num feto  e de fato 
se transporta pra dentro de mim, deitado de lado,
como se eu pudesse lhe gerar a vida.

Ali. Acolá. Pelo chão. Pelo sofá.
Mar de todas as suas lágrimas,
como um ferimento que não pára de jorrar;
maré que você não evita e eu atônita
te agarro pela cintura e acabo também por me afogar.

Eu.

Você.

Distantes.

Ligados.

Incerto.


Se eu pudesse, teria trocado de lugar com ela.



terça-feira, 7 de agosto de 2012

1984?


'- Como é que um homem afirma o seu poder sobre outro, Winston?
Winston refletiu.
- Fazendo-o sofrer.
- Exatamente. Fazendo-o sofrer. A obediência não basta. A menos que sofra, como podes ter certeza de que ele obedece sua vontade e não a dele? O poder reside em infligir dor e humilhação. O poder está em se despedaçar os cérebros humanos e tornar a juntá-los da forma que se entender. Começas a distinguir que tipo de mundo estamos criando? É exatamente o contrário das estúpidas utopias hedonísticas que os antigos reformadores imaginavam. Um mundo de medo, traição e tormento, um mundo de pisar ou ser pisado, um mundo que se tornará cada vez mais impiedoso, à medida que se refina. O progresso em nosso mundo será o progresso no sentido de maior dor. As velhas civilizações proclamavam-se fundadas no amor ou na justiça. A nossa funda-se no ódio. Em nosso mundo não haverá outras emoções além de medo, fúria, triunfo e autodegradação. Destruiremos tudo mais, tudo. Já estamos liquidando os hábitos de pensamento que sobreviveram de antes da Revolução. Cortamos os laços entre filho e pai, entre homem e homem, entre mulher e homem. Ninguém mais ousa confiar na esposa, no filho ou no amigo. Mas no futuro não haverá esposas ou amigos. As crianças serão tomadas das mães ao nascer, como se tiram os ovos da galinha. O instinto sexual será extirpado. A procriação será uma formalidade anual como a renovação de um talão de racionamento. Aboliremos o orgasmo. Nossos neurologistas estão trabalhando nisso. Não haverá lealdade, exceto leladade ao Partido. Não haverá amor, exceto amor ao Grande Irmão. Não haverá riso, exceto o riso, de vitória sobre o inimigo derrotado. Não haverá nem arte, nem literatura, nem ciência. Quando formos onipotentes, não teremos mais necessidade de ciência. Não haverá mais distinção entre a beleza e a feiúra. Não haverá curiosidade, nem fruição do processo da vida. Todos os prazeres concorrentes serão destruídos. Mas sempre... não te esqueças, Winston... sempre haverá a embriaguez se tornando mais sutil. Sempre, a todo momento, haverá o gozo da vitória, a sensação de pisar um inimigo inerme. Se queres uma imagem do futuro, pensa numa bota pisando um rosto humano, para sempre.'

Trecho de 1984, de Jorge Orwell.

Espera, 1984?