quinta-feira, 19 de abril de 2012

Você ...

Hoje eu acordei numa vontade incomum de você, de falar de você, de lembrar você.
Não, você não foi parar em nenhuma caixinha de lembranças que vez ou outra eu abro, remexo em fotos e cartas, e no outro dia tudo bem. Mas foi diferente, ao ponto de eu me levantar e pensar em ir até o seu quarto, te acordar com café da manhã na cama e pijama amassado. Torradas, geleia de uva, chocolate quente, e um vento frio lá fora que jamais nos tocaria.

Quis passar toda a hora do almoço falando de você para uma amiga. Da falta de te ver sorrindo envergonhado, coçando a sobrancelha esquerda, olhando para o chão, toda vez que eu via alguma foto da sua infância ou te agradecia por um conselho, afago, por você ser meu porto seguro. Da falta do seu abraço e aquela blusa de lã, que me fazia cócegas, mas também me lembrava o dia em que você disse que precisava de mim. Do seu jeito obcecado de organizar tudo, do tapete preferido e de te ver conversando séria com a cadela de estimação da sua mãe, perguntando como quem espera por resposta porque ela comeu seu chinelo.

Quando eu passei na porta da sua antiga casa, parei e quase toquei a campainha. Eu sei que ali ja não mora o homem mais teimoso do Universo, com seus discos, cafés, filmes, músicas e uma alma que não cabe em medidas. E nem mesmo a versão do que chamaram o pior dele - todas as atitudes impensadas, a cólera, o desespero, a fragilidade e o silêncio. Quem eu encontraria? Talvez uma família feliz, um casal com seus dois filhos, e nenhum deles ciente da história que ali eu vivi, com e por você. É, era melhor permanecer dentro do carro e ter essas imagens só comigo. Talvez a solução para toda essa melancolia não passasse de um belo porre e um cara qualquer num bar pra me dar moral - o tipo de conselho tipicamente seu.

E no fim da tarde, eu parei no fim da rua e fiz questão de ver o sol se pôr. Isso me lembrou de todas as vezes em que você chorou nos meus braços e no quanto isso me atordoava; eu não tinha qualquer ideia do que fazer para ficar bem, mas você estar bem sempre foi o principal. E de todas as conversas, da sua facilidade em falar besteira com cara de sério, de me despertar um ódio mortal com as piadinhas machistas, e da seriedade na hora de me dizer que eu errei, que eu deveria pedir desculpas e tentar ser menos orgulhosa.

Você. Que de uma forma assustadora, eu não sei mais onde está, o que faz, o que pensa. Como é que isso acontece com duas pessoas que reconheciam ser completas uma perta da outra, tão profundamente ligadas que amizade jamais definiria o sentimento comum? É o que me dói no calcanhar, no peito descompassado. Essa distância que não me deixa mais tomar a sua mão entre as minhas e ficar olhando seus dedos finos, longos, as veias altas; que não me traz seu perfume quando você sobe as escadas, antes mesmo de você aparecer; da sua voz me chamando de galega, branca, e me dizendo que 'independente do que aconteça, eu estarei aqui'.