quinta-feira, 31 de março de 2011

Diz ajuste.

- 'Você consegue me ver?' Nem amanheceu e
eis a pergunta sussurada, muito além de palavras e lábios.


Bebe o café com calma, como se fosse
a própria vida a cada gole .. de certa forma, o mesmo sabor.
Queria ser minúscula, detalhadamente feita para caber
entre as mãos e ser tomada, por inteira.
Ser vista de cima, para dentro, fazendo-se parte.
Podia ser pétala de flor ou canto de bem-te-vi ...
a foto que nunca desbota ou uma melodia peculiar.


Não ... foi ser o desajuste, o chão tremendo sob os pés,
o coração na mão de qualquer estranho.
A necessidade incomum de ser gasta,
de ter as energias completamente roubadas e adormecer ...
terna e profundamente ao fim de todos os dias.

segunda-feira, 21 de março de 2011

'Calma, finge que voa.'


É certo que fica a falta de motivo ou só um
pra dançar sozinha em cima da lua
lembrando como é ser criança depois de séculos.
Andei por mil anos e fui uma,
a cada lugar e sorriso que me prendeu.
Fiquei, permaneci imóvel a cada estação,
irracional e simplesmente uma parte de tudo.


E olho assim .. para os mesmos braços,
o mesmo corpo, a mesma inconstância.
O que muda é quem e o que fica entre os abraços,
o que pega no corpo, em cada parte.
Raro. Tocar e ser tão raros ... mas ainda me lembro.
E fica o espaço, a vontade, o capricho.

quarta-feira, 16 de março de 2011

{ }

E o silêncio do mundo.
A sobra de espaço entre os braços.
A falta do que não tem num café.






Agora eu te pergunto, Espelho,
o que é que você vê?

sábado, 12 de março de 2011

Conversa com Tempo



Mas vê só, Tempo, é exatamente isso que
eu falei ontem a noite.
É essa ausência de pressa que me deixa aqui,
sentada por horas na varanda,
olhando as crianças brincando
com seus sonhos lá fora.

Parece uma sabedoria de milênios,
mas na verdade é um pouco de cansaço de
algumas décadas pesadas.
É quase a falta de direção acompanhada
pela vontade de chegar em algum lugar.
Muito longe de desistência ou acomodar-me,
é como a pausa necessária para aceitar
um fim de guerra, um começo de era.

E aí vou eu, desfilando sem passar,
ora com cores e ora sem amores,
fazendo festa pra cada sorriso e ás vezes,
sem querer, velório pra algumas decepções.
Cansada mas ainda crente em cantar e viver,
pequena, mas querendo ser enorme dentro dos outros.
Tão eu mesma _ profunda, clara e estampada_
que fica difícil explicar o que é.

sábado, 5 de março de 2011

Lá do A lá do B

Lembrar.



Do sorriso sem motivo, brando e escancarado.
Da calma andando de mãos dadas com a espera, mesmo quando já não havia mais tempo.
De um perfume inexplicável, que nunca existiu.
Do olhar sincero, até na incerteza, colorindo a dúvida cruel.
Dos braços, ao redor, que não era proteção e nem possessão.
Das mãos passando entre os fios de cabelo, aquela coisa bem afago de gato.
Dos dedos se entrelaçando, denunciando cumplicidade.

A menina do vestido cor de algodão doce,
e a vida se fazendo em cada respiração.
O lado A daquele disco.

Da tentativa de aprisionar e sufocar, tantas amarras sem saber porquê.
Do que tentava causar a desistência, como algo puxando pra baixo.
De algumas marcas, que de certa forma nunca somem.
De algumas expectativas, carregadas de ilusões.
De esperar verdade, a maior das formas de mentir pra si mesmo.
Da injustiça, vulgar, pintada, toda disfarçada, andando pelas ruas da cidade.
Do falso humano, vivendo de aparências e opiniões.

A senhora do chapeu de cor de tempestade,
e a vida se desfazendo, virando pó, areia.
O lado B daquele disco.

Então, o que você quer ouvir?