sexta-feira, 27 de maio de 2011

Insolúvel

A menina dos olhos profundos feito Turmalina,
encontra abrigo exato em braços -
tão cansados, pendendo no corpo da resignação -
e criança que é, mergulha na ilusão de cada conto.
Crê em cada palavra. É então a verdade indubitável,
que faz mergulhar numa tela pintada a ilusões.


Adormece no instante em que o corpo corre
no sentido contrário da voracidade do mundo.
E naquele sonho, olha para a palma das mãos da mulher
e compreende quase que instantaneamente que força
é remar contra a corrente sem ao menos um barco.
Pupilas cor de camarelo ... doce, suave, ingênua.
Pensa .. 'Quero ser assim: poder me olhar no
espelho e ter certeza que lutei como ela.'


Ironia: a luz se apaga e assim, desperta.
Atordoada com o espaço que não devia existir,
uma mão fechada à garganta, a outra agarrando o lençol.
Onde ela está? Onde é que foi assim tão cedo?
Será que desceu as escadas pra fazer
o jardim florescer como nas outras manhãs?



Olhos verdes, do mais claro tom.



segunda-feira, 16 de maio de 2011

De dentro

Eis um corpo que clama, em cada pulsar, a possibilidade
de atravessar ileso o imprevisto dessa tempestade.
As tantas marcas se cruzam e prefiro me ausentar de mim.
Não era pra ser assim, fugiu dos planos - A, B ... Z.
Uma linha torta muda o traço de uma vida toda.

A dor - um laço grande e belo que enfeita essa caixa,
preenche o vazio de dentro com cores de sonhos.
Mesmo olhando de cima ou contornando-a por fora,
a verdade que ela esconde foge aos mais atentos olhos.

O gosto amargo não é por causa vinho de ontem,
o que me deram no balcão foi um tonel de boas farsas.
E todas as mentiras foram o preço certo do silêncio,
sem garantia, devolução ou manutenção em caso de perdas.

Sei de todos os desvios dessa estrada e não há qualquer
forma de transformá-los em meros contornos ou pontes.
Enquanto chove, rejeito até as breves expedições pela varanda,
que é pra evitar acidentes com os poucos ossos
que até agora permanecem apenas trincados.

Falar de verão não faz o gelo daqui derreter
não traz nenhum raio de luz pela porta ou janela
não aquece o velho cobertor estirado sob a cama.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Dama de Espadas - Consciência

E assim que os ponteiros se encontram, torna-se inadiável.

- Como você me imaginava? - a Dama pergunta, um tanto quanto curiosa.
- Provavelmente como todos eles imaginam. Velha, cruel, horripilante. Confesso que me surpreendi com olhos tão claros e toda essa tranquilidade que existe em você. Inesperado, suficientemente conflitante para me pegar na boca do estômago.
- É realmente a impressão comum. E vocês ainda conversam sobre não julgar pela aparência, quanta hipocrisia! Aliás, são todos assim. Quando se perdem por algum caminho, me chamam aos berros, esquecendo por alguns minutos qualquer temor.
- Você diz sobre mim?
- Não só. Mas você tem sido uma incógnita para mim.
- Como assim?
- No fundo, você sabe e compreende. No entanto, não é por isso que eu estou aqui hoje, e disso você também está ciente. Não é preciso fingir que somos realmente desconhecidas uma para a outra.
- Quer discutir a relação?
- E há como discutir? Não é por escolha, não adianta você ou qualquer outra me culpar. É como um serviço de entrega: sei de onde vem e para onde vai, mas desconheço o motivo e o objeto. Nunca foi uma relação de presença ou não de simpatia. Não vou colecionar almas, tanto porque eu não teria forma alguma de aproveitá-las. E não é da minha competência tomar as rédeas do consolo ... plenamente irracional eu te dar colo numa hora dessas, para depois me incubir da minha tarefa.
- Então é simplesmente vazio, como tudo branco?
- Enlouqueceu? É tanta cor que por vezes eu me sinto atordoada. Parece um eterno carnaval e é uma condição terrível. Quem dera eu tivesse a brevidade que tanto os incomoda.


E o que resta entre a Dama de Copas e a menina é só o mundo,
esfera minúscula diante da grandeza desconcertante da ocasião.
Uma vida de silêncio.


- Não existe a possibilidade de fazer uma troca? - pergunta a menina,
com o verde dessa bola de gude que é a Terra, brilhando nos olhos.