sexta-feira, 6 de maio de 2011

Dama de Espadas - Consciência

E assim que os ponteiros se encontram, torna-se inadiável.

- Como você me imaginava? - a Dama pergunta, um tanto quanto curiosa.
- Provavelmente como todos eles imaginam. Velha, cruel, horripilante. Confesso que me surpreendi com olhos tão claros e toda essa tranquilidade que existe em você. Inesperado, suficientemente conflitante para me pegar na boca do estômago.
- É realmente a impressão comum. E vocês ainda conversam sobre não julgar pela aparência, quanta hipocrisia! Aliás, são todos assim. Quando se perdem por algum caminho, me chamam aos berros, esquecendo por alguns minutos qualquer temor.
- Você diz sobre mim?
- Não só. Mas você tem sido uma incógnita para mim.
- Como assim?
- No fundo, você sabe e compreende. No entanto, não é por isso que eu estou aqui hoje, e disso você também está ciente. Não é preciso fingir que somos realmente desconhecidas uma para a outra.
- Quer discutir a relação?
- E há como discutir? Não é por escolha, não adianta você ou qualquer outra me culpar. É como um serviço de entrega: sei de onde vem e para onde vai, mas desconheço o motivo e o objeto. Nunca foi uma relação de presença ou não de simpatia. Não vou colecionar almas, tanto porque eu não teria forma alguma de aproveitá-las. E não é da minha competência tomar as rédeas do consolo ... plenamente irracional eu te dar colo numa hora dessas, para depois me incubir da minha tarefa.
- Então é simplesmente vazio, como tudo branco?
- Enlouqueceu? É tanta cor que por vezes eu me sinto atordoada. Parece um eterno carnaval e é uma condição terrível. Quem dera eu tivesse a brevidade que tanto os incomoda.


E o que resta entre a Dama de Copas e a menina é só o mundo,
esfera minúscula diante da grandeza desconcertante da ocasião.
Uma vida de silêncio.


- Não existe a possibilidade de fazer uma troca? - pergunta a menina,
com o verde dessa bola de gude que é a Terra, brilhando nos olhos.

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