quinta-feira, 28 de junho de 2012

PR.

Poeira.

Grudada na roupa, nos cabelos desgrenhados,
entrando pela garganta.
Uma vida habitada por cactos e erosões.


Dono de um deserto, Terra de Ninguém.
Um xerife, um abutre. 
Não, um cachorro do mato,
branco, imenso, com seus dentes escandalosos.


E um estrangeiro.
Máquina fotográfica e bermudas floridas.
'É férias, vamos nos aventurar.' 
Riscos demais.
Havia esquecido da arte de (sobre)viver.
Sem camelo, alimento, água ou bússola.
 Até  o corpo secar como o ventre de uma velha,
como o tronco oco de uma árvore.

De um denso liquefeito.
Tinha caido em algum lugar.
Sentidos e consciência em perfeita desordem.
Olhos lentos, cuidado com o que vê.


Uma miragem? Só podia ser.
Impossível ver um animal selvagem sorrindo,
com tamanha solenidade, graça e pureza.
Ele era todo luz, todo paz,
todo voracidade e todo um só.
E todo uma força, uma energia,
incomparáveis a qualquer outra sentida e conhecida.


Mas não queria piscar.
Não podia - e sabia o motivo - perder aquilo,
mesmo sem saber o que era.
Compreendia a brevidade de cada detalhe
e o quão insípido se tornara tudo que fosse alheio à tal imagem.


Adormeceu e acordou dias depois,
em outro lugar,
como se nada tivesse acontecido.


De onde você estiver, é exatamente assim que vou te ver,
me lembrar de você, manter você vivo.





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